Ronilda Maria Vieira

Ronilda Maria Vieira - Entrando em uma nova vida

Ronilda Maria VieiraDesde que completei 40 anos, fazia, anualmente, a mamografia e ultrasom de mamas, alternadamente.

A partir dos 50 anos, fazia os dois exames conjuntamente.

Em 2006, tive um diagnóstico de câncer de mama.

A princípio, dois na mama esquerda e um na mama direita. Este último não teve um resultado totalmente conclusivo.

A espera pelo resultado das biópsias foi angustiante, mas aos poucos pensava no que o Dr. Ivo tinha dito: “-Ronilda está me parecendo um cisto. E, nesse embalo de uma melhor expectativa eu fui esperando.

Era começo de julho e minha filha se formaria em Farmácia no início de agosto e, estávamos preparando uma festa no intervalo entre a colação de grau e o baile.

Tudo já estava praticamente contratado: os músicos, garçons, serviço de coquetel, os convites, etc. Estávamos acertando os últimos detalhes de roupas e outras coisas mais e eu procurei me empenhar nisto de corpo e alma.

Só comentei com meu marido e decidi não dizer nada aos nossos filhos: eles estavam em provas de final de semestre e, afinal, poderia não ser nada de mais grave.

No dia marcado para pegar o resultado de exame fomos ao laboratório, meu marido e eu.

Estava angustiada e apreensiva. Sabia que poderia dar resultado positivo e, no íntimo, já pressentia, mais, já sentia, o diagnóstico.

A suspeita dos nódulos e a indicação imediata da ginecologista para eu ir procurar um mastologista com o resultado eram um forte indicativo.

Ali mesmo, na frente do prédio do laboratório, eu abri o envelope e lá estava: Positivo em 2 nódulos da mama esquerda – um com 1 cm e outro com 0,2 cm.

Mais um na mama direita, pequeno, porém não totalmente conclusivo.

Podem imaginar que a minha preparação psicológica foi para o brejo. As lágrimas já me saltaram aos olhos e, me esforçando ao máximo, disse para seguirmos para a mastologista que já estava nos aguardando.

Foi uma consulta extremamente difícil, pois quando começava a expor minha estória eu desatava a chorar.

Hoje penso que fui muito contida e corajosa. Deveria ter chorado toda a dor que estava sentindo e só depois conversar com a médica.

Afinal, consegui me acalmar. A principio faria uma mastectomia radical da mama esquerda e retiraria um quadrante da direita.

Fui embora e fiquei aguardando os orçamentos da mastectomia e da reconstrução mamária.

Dias mais tarde, quando me ligaram do consultório para me dar o orçamento fiquei novamente em choque. Além de monoteta ficaria enpidada.

Obviamente, consultei outros mastologistas e cirurgiões plásticos, não só pelo valor das cirurgias como pelo método e certeza do diagnóstico.

Novas biópsias foram feitas e ficou negativado o câncer da mama direita.

Sempre que conversava com os médicos eu avisava que só faria a cirurgia após a formatura e, eles me deixavam tranqüila a este respeito. Afinal, em 20 dias poderia me operar.

Neste ínterim, tive uma pansinusite, que me obrigou a um longo tratamento. Como resultado, só fui fazer a cirurgia no dia 30 de agosto.

Ah, após a formatura contei aos meus filhos o que estava ocorrendo. A reação deles foi tranqüila.

Eu, como qualquer outra mulher, tinha os seios como algo de mais feminino que possuía.

Pensava que se tivesse que tirar um ou os dois seria algo insuportável.

Tinha algumas colegas e parentes que já haviam feito mastectomia e sempre procurei ter uma atitude bem racional com elas. Mas, quando pensava que poderia ocorrer comigo, me sentia desesperada.

No entanto, estes quase trinta dias a mais que tive, me deram uma tranqüilidade que jamais pensei ter.

O tempo realmente é o melhor remédio.

A idéia de tirar um seio já não mais me assustava. A minha VIDA era muito mais importante. E eu queria viver. E sabia que faria todo o tratamento que me fosse prescrito para me curar. Para mim, a vida está acima de tudo.

Para a formatura de minha filha cortei meus cabelos bem curtos, aproveitando que era uma ocasião especial e, assim, não chamaria a atenção para o fato.

Depois da cirurgia, cortei mais uma vez e, muito, muito curto. Aos poucos eu ia me acostumando a ver mais meu rosto do que meus cabelos.

Comecei meu tratamento em setembro, tive uma alergia generalizada por causa dos esparadrapos e não houve medicamento que pudesse acabar com ela. A quimioterapia foi a solução.

Esse período transcorreu com muita calma e, praticamente, senti muito pouco. É claro que há os efeitos colaterais, mas estava bem preparada para isto.

Alguns cheiros ficaram insuportáveis, as veias sumiam cada vez mais, e achá-las chegava a ser uma verdadeira tortura.

Após a segunda aplicação, minha escova tinha mais cabelo do que minha cabeça. Era chegada a hora: chamei o José Carlos (meu marido) e pedi que me raspasse a cabeça.

No meio da operação não seguramos as lágrimas e nos abraçamos, chorando muito. Aquela dor compartilhada era um bálsamo para mim. Eu tinha extrema necessidade de que alguém, muito próximo, chorasse comigo, mostrasse que estava comigo naquela hora mais difícil.

Normalmente todos têm a preocupação de não se mostrarem preocupados e fazem de conta que tudo é muito normal, quando precisamos é justamente que nos digam que vai ser difícil sim, mas que vamos superar e estarão sempre conosco.

Nada impediu que eu levasse a minha vida normalmente. Saí muito, passeei, viajei, fui a todas as festas, sempre observando a cautela necessária.

Durante a químio não usei peruca – me sentia estranha, como se fosse outra pessoa. Optei por me mostrar como estava – totalmente careca.

Usei e abusei de chapéus e turbantes. Brinquei com a minha imagem à vontade. Brincos enormes em uma orelha e um mínimo em outra. Caprichava sobremaneira na maquiagem dos olhos, contornando-os fortemente. Eu gostava de me olhar no espelho. A minha cabeça é bem redondinha (descobri isto nessa época) e formava um conjunto bonito com rosto, sem cabelos e com os olhos bem demarcados (eu já os tenho grandes, imagina o tamanho que adquiriam).

Durante o meu tratamento tive gratas, gratíssimas surpresas. Recebi presentes, flores, visitas, e, surpreendentemente, de vez em quando meu marido ou outra pessoa conhecida vinha me dizer que alguém que conhecia algum conhecido meu, havia me colocado no seu grupo de orações semanais; outro, que havia uma sessão semanal num determinado centro espírita dedicado a mim. Missas, orações em grupo, todo o tipo de força que se necessita nesse período, eu tive.

Minhas irmãs chegaram à minha casa com um grande bolo, todo confeitado, cantando o Parabéns a Você. Eu estava entrando em uma nova vida.

Minhas amigas me pegavam em casa para vir na Madre – Santa Paulina, tocar na sua imagem.

As pessoas me abraçavam na rua, durante o carnaval, na igreja, no Mercado Púbico, nos supermercados. Pessoas que eu jamais havia visto. Era maravilhoso. Era um abraço sem palavras, em que o silêncio dizia tudo.

O José Carlos recebeu, de presente, um livro sobre como conviver e ajudar pessoas com câncer.

Seria necessário um capítulo inteiro para contar e, com muito cuidado pra não esquecer nada ou ninguém. Fatalmente aconteceria.

Quando tenho estas recordações, é inevitável, as lágrimas me vêem e não consigo contê-las. É uma emoção sem dimensão, gostosa e totalmente agradecida. Jamais terei palavras para agradecer a todos o bem-estar que me proporcionaram.

Mas, sempre tem um mas, temos os ganhos e, também, as perdas.

Em dezembro, no dia seguinte à minha sessão de quimio, fui à Trindade me encontrar com minhas irmãs e, quando estava na faixa de pedestre, fui atropelada. Resultado: duas costelas quebradas do lado direito e uma do lado esquerdo, além de suspeita de haver quebrado o externo – o osso do peito.

Quem já quebrou uma costela sabe a dor que se sente. É insuportável. Qualquer movimento que se faça, a dor está lá, lancinante. São em torno de três meses para se curar.

Nos primeiros dias de janeiro de 2007, outro golpe: minha irmã mais velha, então com 58 anos, cardíaca, não resistiu a mais um enfarte. Foi doloroso. Ela me ligava todos os dias, sem exceção, para saber como eu estava, inteiramente preocupada comigo e ela é quem se vai.

Tive que tirar forças de todos os lados para não sucumbir e continuar, o mais calma possível, o meu tratamento.

Assim como tive os amigos que se chegaram, tive os amigos que se afastaram. Pessoas antes tão próximas de mim me ligavam algumas vezes – poucas – e diziam: olha, estou solidária contigo, não passo por uma igreja sem rezar por ti. Mas jamais me visitaram.

Outros ficaram tão atordoados que fingiam que não estava acontecendo nada. E ainda, aqueles que avisam os demais e pediam, pelo-amor-de-Deus, não comenta jamais, qualquer coisa com ela, não telefona, não visita.

Medos, estranhos medos.

Medos que impedem as pessoas de se tratarem, de fazerem exames e, se o fazem, não os buscam. Medo de uma notícia pior, de enfrentar o tratamento, de achar que não vão se curar.

Aliado aos medos, temos os mitos, os estigmas, as culpas. Pessoas dizem que nunca tiveram nada antes, nunca ficarão doentes e não vai ser agora que farão exames. – “Quem procura, acha; Câncer não tem cura; Estou muito velha/o para fazer exames; Se tem câncer é porque cometeu alguma falta ou não soube lidar com as frustrações”, e outros absurdos do gênero.

Não temos culpa de nada. Ficamos com câncer porque existe sempre a possibilidade de nossas células se desenvolverem desordenadamente.

A medicina está cada vez mais avançada, a bioengenharia inventa, a cada dia, novos equipamentos, melhora os existentes, os farmacêuticos pesquisam novos e mais eficazes medicamentos, tudo, enfim, conspira a favor da cura do paciente.

A nós, pessoas, cabe fazer o que é inadiável: exames preventivos.

O câncer é uma doença silenciosa e, quanto mais cedo o descobrimos, mais rápido é o tratamento e maior a chance de cura.

No ano de 2007, meu filho, Carlos Augusto, foi para um estágio na Alemanha. Passou um ano lá.

Eu me empenhei totalmente para que ele fosse, comprando passagens, separando dinheiro para a estadia inicial e tudo o mais que fosse necessário.

Ele cursava Engenharia de Controle e Automação na UFSC e passou na entrevista para o estágio na SAP – maior empresa de automação de software do mundo.

Era uma oportunidade de experiência sem comparação e riqueza de vida para ele. Não permitiria que nada o impedisse de ir.

Em julho, a namorada dele, Paulinha, veio morar comigo. Queria economizar o aluguel para ir também para a Alemanha. Em outubro, ela viajou.

Em novembro foi a vez de minha filha e o namorado, Maria Luiza e Filipe, irem para os Estados Unidos. Ficamos sós, José Carlos e eu.

Fiquei extremamente saudosa, mas feliz.

Foi um período venturoso para nós dois.

Não tínhamos compromisso com mais ninguém. Não tínhamos horários, não esperávamos ninguém.

Saíamos à hora que queríamos e voltávamos quando nos cansávamos.

Passeamos muito e nos curtimos muito. Foi um período de descobertas de nós mesmos, de um retorno ao namoro. A vida continua.

Neste meio tempo fui convidada a integrar a diretoria da AMUCC. E fui até lá para conhecer a Associação, saber o que fazia, quais eram seus objetivos. A integração aconteceu e lá estou até hoje.

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